terça-feira, 26 de março de 2019

[Crônicas da Vida] A MORTE DE UM PROFETA


O amigo chegou de outra cidade, entrou no salão, todos olhando. Se dirigiu até onde estava a caixa de madeira que seria a morada de um corpo gélido por um tempo escondido embaixo da terra.

Os olhares não o intimidaram. Ele adentra a sala, se aproxima daquela caixa e olha o corpo deitado dentro dela, ladeada de flores, que nunca ninguém antes, pensou em oferece-las enquanto robusto e cheio de vida, que aquele corpo um dia fora.

Olhando para aquele que jaz dentro da caixa, amigo de aventuras e desventuras, sonhos e realizações, brigas e companheirismos; levanta os olhos para os que outrora o encarava e lança a sua oração de despedida.

“Ele, homem de contrários, era amado e odiado; querido e detestado. Muitos daqui presentes, vieram para confirmar: ‘Sim, essa praga findou-se!’ Quem somos neste mundo? Nuvem passageira...poeira ao vento? Pouco importa quem o amou e quem ele amou. Nada mais importa a não ser aquilo que conseguimos sentir em nós diante da morte de alguém, seja esse alguém amado ou não. Ele fará falta? Todos que partem fazem falta. Mesmo os maus nos interpela para um caminho de bondade. Tolo aquele que considera todos inimigos e não aliados. Ele foi amado e odiado por ser sincero e convicto de suas opiniões e claro, não poderia ser diferente a sorte dos que agem assim, ele é um incomodo à todos, uma verdadeira pedra no sapato!”

“Se entrega aos braços da morte, cansado das lutas; cansado da hipocrisia; das amizades interesseiras; da incompreensão. Ele, pessoa de contrários, entregue aos olhos de piedade; dolo e satisfação de todos dessa sala. Ahhhh...como ele deve estar se sentindo se pudesse? Talvez onipotente, por todos estarem ao redor dele, enquanto em vida, muitos desejavam era estar bem distantes.”

“A entrega às pessoas em vida, deve ser realizada pela disponibilidade de uma se acrescer à outra, não diminuir à outra. Legado importante é o conhecimento e todos tem algo para ensinar e aprender do outro.”

“O que mais dizer, sobre esse contraditório ser? O que mais dizer sobre cada um de vocês? Sim, a morte fala de nós, mais do que a vida. Porque perante a morte somos todos iguais, um corpo gelado. O que viemos contemplar, no vazio de cada um aqui, inclusive eu, é o nosso amanhã”.

“Que a vida seja sempre oferecida a nós nas taças da verdade. Assim sincera e cândida será o caminhar neste mundo. As ilusões sejam perdidas e, em seu lugar, encontramos a realidade do que somos e não a expectativa do que queremos ser. Vivamos cada segundo, querendo-nos bem. Sentindo a dor e a alegria um do outro em uma complexa solidariedade.”

terça-feira, 19 de março de 2019

[Crônicas da Vida] SOLO SAGRADO



Quando ela abriu aquela porta e a atravessando, tão de imediato foi a satisfação que exclamou no seu íntimo: “Esse é um solo sagrado!”

Não havia se passado muito tempo desde que ela o conheceu. Ela não era uma artista, mas, sua sensibilidade para as certezas da vida eram aguçadas. E o medo não a amedrontava, lhe era um aliado para as suas decisões.

Diante do medo do novo e a certeza de que o arriscar-se é parte da nova experiência para ser feliz, lançou-se nos braços de seu amado em pouco tempo de conversas e sorvetes na praça da igreja de sua comunidade.

A viagem pelo seus sentimentos que, não a torturava mas, a deixava livre para a verdadeira escolha diante de tantos contrastes que era o outro, procurou não se desvincular, mas, compreender; não aceitar e, sim, acolher para entender. Ela mergulhou fundo no mistério do outro ser. Sondou os mais profundos abismos do diferente de si encontrando tesouros que a enriqueceu, sem abandonar o tesouro que ela já era e possuía.

Ela percebeu que o amor não é um investimento e sim a felicidade!

Ele também, pelo que se consta, exercia certos vícios, porém, a justeza dela, equilibrou o destemperado que lhe havia. Sentiu-se feliz ao consumir-se nos beijos dela. Ela se tornou o altar, onde o sacrifício ofertado, enriquecia o seu existir e não um entorpecimento! Ela era o seu altar sagrado!

Os dois se uniram, edificaram a feliz observância do amor mútuo e desse ato, se submeteram um ao outro.

Por isso, ao adentrar a porta daquela casa, adquirida com o suor sagrado que pingava de seus rostos apaixonados, dia após dia; noite após noite; não chamava de casa, e sim de lar! Um solo sagrado.