O amigo
chegou de outra cidade, entrou no salão, todos olhando. Se dirigiu até onde
estava a caixa de madeira que seria a morada de um corpo gélido por um tempo
escondido embaixo da terra.
Os olhares
não o intimidaram. Ele adentra a sala, se aproxima daquela caixa e olha o corpo
deitado dentro dela, ladeada de flores, que nunca ninguém antes, pensou em
oferece-las enquanto robusto e cheio de vida, que aquele corpo um dia fora.
Olhando
para aquele que jaz dentro da caixa, amigo de aventuras e desventuras, sonhos e
realizações, brigas e companheirismos; levanta os olhos para os que outrora o
encarava e lança a sua oração de despedida.
“Ele,
homem de contrários, era amado e odiado; querido e detestado. Muitos daqui
presentes, vieram para confirmar: ‘Sim, essa praga findou-se!’ Quem somos neste
mundo? Nuvem passageira...poeira ao vento? Pouco importa quem o amou e quem ele
amou. Nada mais importa a não ser aquilo que conseguimos sentir em nós diante
da morte de alguém, seja esse alguém amado ou não. Ele fará falta? Todos que
partem fazem falta. Mesmo os maus nos interpela para um caminho de bondade.
Tolo aquele que considera todos inimigos e não aliados. Ele foi amado e odiado
por ser sincero e convicto de suas opiniões e claro, não poderia ser diferente
a sorte dos que agem assim, ele é um incomodo à todos, uma verdadeira pedra no
sapato!”
“Se
entrega aos braços da morte, cansado das lutas; cansado da hipocrisia; das
amizades interesseiras; da incompreensão. Ele, pessoa de contrários, entregue
aos olhos de piedade; dolo e satisfação de todos dessa sala. Ahhhh...como ele
deve estar se sentindo se pudesse? Talvez onipotente, por todos estarem ao
redor dele, enquanto em vida, muitos desejavam era estar bem distantes.”
“A entrega
às pessoas em vida, deve ser realizada pela disponibilidade de uma se acrescer
à outra, não diminuir à outra. Legado importante é o conhecimento e todos tem
algo para ensinar e aprender do outro.”
“O que
mais dizer, sobre esse contraditório ser? O que mais dizer sobre cada um de
vocês? Sim, a morte fala de nós, mais do que a vida. Porque perante a morte
somos todos iguais, um corpo gelado. O que viemos contemplar, no vazio de cada
um aqui, inclusive eu, é o nosso amanhã”.
“Que a
vida seja sempre oferecida a nós nas taças da verdade. Assim sincera e cândida
será o caminhar neste mundo. As ilusões sejam perdidas e, em seu lugar,
encontramos a realidade do que somos e não a expectativa do que queremos ser.
Vivamos cada segundo, querendo-nos bem. Sentindo a dor e a alegria um do outro
em uma complexa solidariedade.”

