quarta-feira, 30 de abril de 2008

Isabella e o aborto

Quem não se revoltou com os fatos ocorridos recentemente com a pequena Isabella Nardone, assassinada de forma brutal. Se isso nos revolta é porque somos sensíveis. Acaso esse apelo à sensibilidade não deve se tornar em sensacionalismo, há diferenças. Há diferença também no caso de se matar uma criança de cinco anos e outra de um ou dois dias (até menos) ainda dentro do ventre? Ambas são pessoas? E o que é pessoa? Revoltante ainda é a contradição e a falta de interesse em se pensar o óbvio e sanar as diferenças. Que os acontecimentos e as tragédias não nos sejam indiferentes.

Quem se revolta com algo é porque tem sensibilidade e a coerência de ver algo contra determinado valor. Nesse caso da Isabella, o valor que temos é a vida. Quem não se revolta diante desse acontecido? Só os insensíveis e o (s) assassino (s) que cometem tal crime, longe de qualquer julgamento – é que existem pessoas que não se importam com o que acontece ao seu redor, como se se pode viver como se fossem ilhas.

Há pessoas sensíveis que se revoltam e há pessoas sensíveis que não se revoltam. E aí o que fazer? Parece não haver lógica! Mas há. Se pensarmos que as mesmas pessoas que se sensibilizaram e se revoltaram condenando tal fato contra a vida de Isabella, não se sensibilizam e nem se revoltam com a morte de uma criança ainda no ventre de sua genitora. Não há diferença de uma vida a outra. Há diferença de história de vida. Várias questões poderíamos fazer a partir disso, mas, seria importante para este texto e à nossa reflexão? Em todo caso, fiquemos com apenas essa para refletirmos durante o dia ou dias que se passarão depois de sua leitura: “Por que uma possui o direito de se ter uma história, mesmo que seja de cinco anos e, a outra de nem um dia ou menos?”. Mas, não vamos gerar polêmicas, apenas reflexões e soluções.

Um feto não é considerado pessoa uma vez que ele pode ser abortado. Não goza de direitos. Um embrião é considerado pessoa e pode ser utilizado para gerar um órgão para implante em alguém que precise. Ele não é uma pessoa quando se leva em consideração o favor ao aborto ou quando convém? No entanto, um embrião pode gerar um órgão e o que o impede em gerar uma pessoa então? Talvez a nossa ignorância em aceitar o aborto. Ou a pessoa que poderia dar a resposta a essa questão fora abortada ou poderá vir a ser, o futuro dependerá do hoje, assim como a resposta. Se a ciência pode gerar vida por quê gerar a morte? Uma célula pode se transformar em pessoa naturalmente, sinal de que nela já se exista vida, se não como duplicariam e tudo o mais dentro do processo constitutivo humano.

Acima falamos de resposta, assim sendo, o que é uma pessoa? Pessoa é aquele homem ou mulher que existe moralmente e judicialmente. O ser moral possui dignidade. O ser judicial está sujeito a direitos e deveres. A ciência sabe que um feto já possui as características herdadas de seus pais. Aliás, sabe que o espermatozóide e o óvulo carrega a carga genética dos genitores. E existem pessoas que insistem em dizer que embrião não é pessoa, mesmo nos primeiros instantes da fecundação.

A revolta contra a morte, violenta ou não, é um sim à vida. Façamos desta revolta a nossa volta ao sentido dos valores que embora pareçam terem desaparecidos da nossa sociedade atual, quando se referem à vida demonstram bem vivos e enraizados no consciente coletivo e no arcabouço histórico da sociedade. Escolhamos, pois, a vida e lutemos contra a ideologia de morte que nos rodeia querendo nos devorar.

Padre Rogério Zenateli

30.04.2008

domingo, 13 de abril de 2008

45o. DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES


MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI
PARA O 45º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES
13 DE ABRIL DE 2008 - IV DOMINGO DE PÁSCOA
Tema: «As vocações a serviço da Igreja-Missão»

Caros irmãos e irmãs!
1. Tendo em vista o Dia Mundial de Orações pelas Vocações, que será celebrado em 13 de abril de 2008, escolhi o tema: As vocações a serviço da Igreja-missão. Aos Apóstolos Jesus ressuscitado confiou o mandato: “Ide, pois, fazei discípulos meus entre todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19) e assegurando: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). A Igreja é missionária no seu conjunto e em cada um dos seus membros. Se, graças aos sacramentos do Batismo e da Confirmação, cada cristão é chamado a testemunhar e a anunciar o Evangelho, a dimensão missionária é especialmente e intimamente ligada à vocação sacerdotal. Na aliança com Israel, Deus confiou a homens selecionados, chamados por Ele e enviados ao povo em seu nome, a missão de serem profetas e sacerdotes. Assim fez, por exemplo, com Moisés: “E agora, vai! – lhe disse Javé – Eu te envio ao Faraó [...] [...] quando tiveres tirado o povo do Egito, ser vireis a Deus sobre esta montanha”. (Ex3,10. 12). Igualmente acontece com os profetas.

2. As promessas feitas aos pais se realizaram plenamente em Jesus Cristo. A este respeito, afirma o Concílio Vaticano II: “Veio pois o Filho, enviado pelo Pai, que n’Ele nos escolheu antes de criar o mundo, e nos predestinou para sermos filhos adotivos [...] Por isso, Cristo para cumprir a vontade do Pai, inaugurou na terra o Reino dos Céus e revelou-nos o seu mistério, realizando-o, com a própria obediência, a redenção” (Const. Dogm. Lumen Gentium, 3). Durante a pregação na Galiléia, na vida pública, Jesus escolheu os discípulos como seus diretos colaboradores no ministério messiânico. Por exemplo, na multiplicação dos pães, quando disse aos Apóstolos: “Dai-lhes vós mesmo de comer” (Mt 14,16), animando-os assim, a assumir o peso das necessidades das multidões, às quais queria oferecer o alimento para saciar-lhes a fome, mas também revelar o alimento “que dura para a vida eterna” (Jo 6,27). Movia-se de compaixão pelo povo, porque, ao percorrer cidades e aldeias, via multidões cansadas e abatidas, “como ovelhas sem pastor” (cf Mt 9,36). Do seu olhar de amor brotava o convite aos discípulos: “Pedí ao Senhor da messe, que mande operários para sua messe” (Mt 9,38), enviando antes os Doze, com precisas instruções, “às velhas perdidas da casa de Israel”. Se nos detemos a meditar esta página do Evangelho de Mateus, conhecida comumente como “discurso missionário”, observamos todos aqueles aspectos que caracterizam a atividade missionária de uma comunidade cristã, que deseja ser fiel ao exemplo e ao ensinamento de Jesus. Corresponder ao chamado do Senhor supõe enfrentar cada perigo com prudência e simplicidade, e inclusive as perseguições, pois “um discípulo não é mais que seu mestre, nem um servo mais que o seu patrão” (Mt 10,24). Feitos uma coisa só com o Mestre, os discípulos não ficam sós para anunciar o Reino dos Céus, mas é o mesmo Jesus que age neles: “Quem vos acolhe, a mim acolhe; e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou” (Mt 10, 40). Além disso, como verdadeiras testemunhas, “revestidos da força do alto” (Lc 24,49), estes pregam “a conversão e o perdão dos pecados” (Lc 24,47) a todos os povos.

3. Precisamente por terem sido enviados pelo Senhor, os Doze receberam o nome de “apóstolos”, chamados a percorrer os caminhos do mundo anunciando o Evangelho, como testemunhas da morte e ressurreição de Cristo. Escreve São Paulo aos cristãos de Corinto: “Nós – isto é os Apóstolos – anunciamos Cristo crucificado” (1Cor 1,23). Neste processo de evangelização, o Livro dos Atos dos Apóstolos considera também muito importante o papel de outros discípulos, cuja vocação missionária surge através circunstâncias provindenciais, às vezes dolorosas, como a expulsão da própria terra enquanto seguidores de Jesus (cf. 8,1-4). O Espírito Santo permite transformar esta prova em ocasião de graça, fazendo com que o nome do Senhor seja anunciado a outros povos, ampliando assim o círculo da comunidade cristã. Trata-se de homens e de mulheres que, como escreve Lucas no livro dos Atos, “arriscaram a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (15,26). O primeiro entre todos, chamado pelo Senhor mesmo para ser um verdadeiro Apóstolo, é, sem dúvida, Paulo de Tarso. A história de Paulo, o maior missionário de todos os tempos, descreve, em muitos aspectos, qual seja o nexo entre a vocação e a missão. Acusado pelos seus adversários de não ter sido autorizado para o apostolado, ele mesmo, repetidas vezes, apela ao chamado recebido diretamente pelo Senhor (cf. Rm 1,1; Gal 1,11-12.15-17).

4. O que “impeliu” os Apóstolos no início, e no decorrer dos tempos, foi sempre “o amor de Cristo” (cf. 2Cor 5,14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à ação do Espírito Santo, muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram as pegadas dos primeiros discípulos. Observa o Concílio Vaticano II: “Embora todo discípulo de Cristo incumba-se da obrigação de difundir a fé conforme as suas possibilidades, Cristo Senhor chama sempre dentre os discípulos os que ele quer para estarem com ele e os enviarem a evangelizar os povos (cfr Mc 3,13-15)” (Decr. Ad gentes, 23). De fato, o amor de Cristo foi comunicado aos irmãos, com exemplos e palavras - com toda a vida. “A vocação especial dos missionários ad vitam – escreveu o meu venerável Predecessor João Paulo II - conserva toda a sua validade: representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem necessidade de doações radicais e totais, de impulsos novos e corajosos” (Enc. Redemptoris missio, 66).

5. Entre as pessoas que se dedicam totalmente a serviço do Evangelho estão, de modo particular, muitos sacerdotes chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos sofredores, dos pobres e dos que passam por momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários levam o primeiro anúncio do seu amor redentor. As estatísticas testemunham que o número dos batizados aumenta cada ano, graças à ação pastoral destes sacerdotes, inteiramente consagrados à salvação dos irmãos. Neste contexto, seja dado um especial reconhecimento “aos presbíteros fidei donum que edificam a comunidade, com competência e generosa dedicação, anunciando-lhe a palavra de Deus e repartindo o pão da vida, sem pouparem as suas energias ao serviço da missão da Igreja. Por fim, é preciso agradecer a Deus pelos numerosos sacerdotes que tiveram de sofrer até ao sacrifício da vida por servir a Cristo [...]. Trata-se de comoventes testemunhos que poderão inspirar muitos jovens a seguirem por sua vez a Cristo e gastarem a sua vida pelos outros, encontrando precisamente assim a vida verdadeira.” (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 26). Desta forma Jesus, através dos seus sacerdotes, se faz presente entre os homens de hoje, até às mais distantes extremidades da terra.

6. Não são poucos os homens e as mulheres que, desde sempre na Igreja, movidos pela ação do Espírito Santo, escolheram de viver radicalmente o Evangelho, professando os votos de castidade, pobreza e obediência. Esta multidão de religiosos e de religiosas, pertencentes a numerosos Institutos de vida contemplativa e ativa, tem tido “até agora uma parte importantíssima na evangelização do mundo” (Decr. Ad gentes, 40). Com a oração perseverante e comunitária, os religiosos de vida contemplativa intercedem incessantemente pela inteira humanidade; os de vida ativa, com suas múltiplas formas de ação caritativa, levam a todos o testemunho vivo do amor e da misericórdia de Deus. Diante destes apóstolos do nosso tempo, o Servo de Deus Paulo VI, pôde dizer: “Graças à sua consagração religiosa, eles são por excelência voluntários e livres para deixar tudo e ir anunciar o Evangelho até as extremidades da terra. Eles são empreendedores, e o seu apostolado é muitas vezes marcado por uma ori ginalidade e por uma feição própria, que forçosamente lhes granjeiam admiração. Depois, eles são generosos: encontram-se com freqüência nos postos de vanguarda da missão e a arrostar com os maiores perigos para a sua saúde e para a sua própria vida. Sim, verdadeiramente a Igreja deve-lhes muito” (Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 69).

7. Além disso, para que a Igreja possa continuar a missão que lhe foi confiada por Cristo e não faltem os evangelizadores que o mundo necessita, será oportuno que nas comunidades cristãs, nunca falte uma constante educação na fé das crianças e dos adultos; é necessário manter vivo nos fiéis um sentido ativo de responsabilidade missionária e de participação solidária com os povos da terra. O dom da fé chama todos os cristãos a cooperarem na evangelização. Esta consciência seja alimentada através da pregação e da catequese, pela liturgia e por uma constante formação na oração; seja incrementada com o exercício da acolhida, da caridade, do acompanhamento espiritual, da reflexão e do discernimento, como também com a elaboração de um plano de pastoral, do qual faça parte integrante o cuidado das vocações.

8. Somente num terreno espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para o sacerdócio ministerial e para a vida consagrada. De fato, as comunidades cristãs, que vivem intensamente a dimensão missionária do mistério da Igreja, jamais serão levadas a fechar-se em si mesmas. A missão, como testemunho do amor divino, se torna particularmente eficaz quando é partilhada comunitariamente, “para que o mundo creia” (cfr Jo 17,21). A graça das vocações é o dom que a Igreja invoca diariamente ao Espírito Santo. Desde o seu início a comunidade eclesial, recolhida em torno à Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, d’Ela aprende a implorar do Senhor o florescimento de novos apóstolos, que saibam viver no seu íntimo aquela fé e aquele amor necessários para a missão.

9. Ao confiar esta reflexão a todas as comunidades eclesiais para que a façam suas e, sobretudo, para suscitar subsídios de oração, encorajo o empenho de todos que trabalham com fé e generosidade ao serviço das vocações e, de coração, envio aos formadores, aos catequistas e a todos, especialmente aos jovens na caminhada vocacional, uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 3 de dezembro de 2007
BENEDICTUS PP. XVI

terça-feira, 8 de abril de 2008

Contra o aborto



Estava refletindo sobre os acontecidos recentemente entre Portugal e México e, confesso, nem consegui entender, mas, a revolta não teve como conter. Ela surgiu de forma bruta que não pude controlar e desabafar. Assim exponho a minha indignada revolta: sou contra o aborto e a favor da vida!

A alguns anos atrás conhecei uma pessoa que compôs uma canção. A letra desta canção está até hoje repercutindo em minha mente. Ela retratava a vulnerabilidade do ser humano frente os seus próprios conhecimentos. A sua letra era assim: “O homem pode construir um avião, mas, não pode criar um mosquito”, numa época não muito distante isto não seria possível. No entanto, se analisarmos a fundo ainda não podem.

Ainda não podem criar, pois, tudo já foi criado. Onde pretendo chagar então? Ora, o homem não está próximo de criar, mas, já pode fazer um mosquito a partir do gene de outro. Assim como pode fazer um outro ser humano idêntico a partir de uma célula. O que me revolta então?

O homem já pode fazer um mosquito e um outro ser humano a partir das informações de uma célula, mas, continua insistindo em querer destruir vidas inclusive a da própria raça. É isso o que vem ocorrendo na humanidade que permeia o nosso ecossistema não muito ecológico na cena mundial e que ameaça invadir os nossos quintais. Se é que já não instalaram neles as suas barracas. Ah ser humano! A quem queres enganar? Sabemos dos seus planos para vender mais.

Ainda recentemente, nossos telejornais anunciaram que a grande potência mundial, numa disputa presidencial, seus candidatos se manifestaram contra o aborto e, até quem deles eram a favor, decidiu não pedir desculpas por mudar de opinião. Uma semana antes o México descriminiza o aborto. Portugal já o havia feito antes até à 12 semanas de gravidez. Essa idéia ameaça estar próximo de nós, “nos ameaça como um leão a rugir” e buscar devorar vidas inocentes.

Sem contar que, quando lutaram pela elaboração dos Direitos Humanos, o seu primeiro direito foi o de que todos tivessem assegurados o de viver. É, o homem pode fazer um mosquito e outro ser humano, mas não pode assegurar o direito de viver. Só pode ser brincadeira, ou estão brincando de serem Deus, se é que Deus brinca com as vidas, já que Ele tem esse direito, pois, é criação sua! Nosso questionamento deve ser, “porque eles querem tirar vidas e ao mesmo tempo fazer outras?”. Quem pode entender?

Outra mudança de ideologia que me fez feliz foi o do pai da Liana, aquela adolescente que foi estuprada e morta por outro adolescente. Seu pai era a favor de que se baixasse a maioridade penal para os crimes violentos. Depois que o Senado aprovou esse rebaixamento, devido à gota d’água do João Hélio, arrastado por vários quilômetros num assalto, declarou não ser mais a favor de pôr um adolescente a perder a vida numa prisão.

O que me deixou feliz também neste fato da maioridade penal é de que o governo está sendo contra, embora a derrota no Senado. Sinal de que há neles algum valor pela vida. Espero que estejam contra o aborto também, siga o exemplo dos futuros candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, sejam contra o aborto. Pode ser por ganhar votos e não nenhum princípio ético ali, mas, já é um começo.

sábado, 5 de abril de 2008

Porque Deus Distribui os Talentos

Eu não dou todas as virtudes na mesma medida a cada um. A este concedo a caridade, a outro a justiça; a este a humildade, àquele uma fé viva.
Distribuí muitas graças e virtudes, espirituais e temporais, com tal diversidade, que a ninguém por si só concedi todo o necessário, para serdes obrigado a usar de caridade uns para com os outros.
Quis que todos tivessem necessidade uns dos outros e fossem meus ministros na distribuição das graças e liberalidades que de Mim receberam.
Deus à Sta. Catarina de Sena
Fonte: O Diálogo
http://br.geocities.com/pinto1968/comum/index.htm

sexta-feira, 4 de abril de 2008

RELATO DA MORTE DE SÃO BENEDITO


1 BENDITOS OS QUE ESPERAM VIGILANTES (Lc 12, 37)

A perseverança é a pedra de toque da santidade. Quem não viveu, quem não sofreu com perseverança na fé, ainda não provou o que é.

Nos dias de sua Paixão, Jesus dirigiu aos seus Apóstolos este lindo elogio: “Vocês estiveram sempre junto a mim nas minhas provações” (Lc 22, 28). “O homem foi feito para o amor – escreveu Michel Quoist – e só cresce no amor”. A perseverança é a prova do amor. Cada dia, cada momento da vida de São Benedito foram vividos no amor. Cresceu no amor como crescem as árvores plantadas à beira d’água. Essas águas misericordiosas de Deus foram abundantes na vida de São Benedito e ele nunca deixou de beber delas. Então, é o próprio Espírito Santo quem nos faz concluir por um alto juízo sobre a santidade de Benedito, apoiando-nos nestas pelavras reveladas: “O homem justo crescerá como a palmeira e florescerá como o cedro do Líbano plantado na casa do Senhor. Mesmo na velhice dará frutos cheios de seiva e verdejantes” (Sl 91).

Benedito viveu pouco para os moldes de hoje. Apenas 63 anos. Para quem desejava o céu, como ele, foi uma longa espera. Nunca foi de se poupar, porque poupar-se em demasia pode até aumentar os anos, mas diminui os merecimentos. Desgastar-se por amor de Deus e dos irmãos é contribuir com bom preço para o Reino de Deus. É assim que diz o Evangelho: “Quem ama a sua vida, irá perdê-la, e quem aborrece sua vida, irá conservá-la para a vida eterna” (Jo 12, 55).

Seus dias foram cheios. No campo, na lavoura, no eremitério de Frei Lanza ou no convento de Santa Maria de Jesus sua vida foi trabalho, trabalho e mais trabalho. “A vida do homem sobre a terra é uma luta”. A divisa de Jó foi também o programa de vida para Benedito. Jamais conheceu perdas pelas quais tivesse que se arrepender. Era o servo fiel e prudente, e, com isso, atingiu enorme santidade e Deus alcançou grande glória.

2 FIM DO CAMINHO

“Preciosa é, aos olhos do Senhor, a morte de seus santos” (Sl 115, 15). Por que é preciosa? Porque Deus tem pressa de premia-los com a felicidade infinda do céu. Contudo Deus dá a cada um a vida que lhe estava prevista desde toda a eternidade, porque cada um tem de cumprir a missão para a qual Deus o criou. “Quero que onde eu estiver, vocês estejam também”, disse Jesus aos seus discípulos. Se há alguma coisa que diminuiu a vida dos santos, não foram as penitencias que fizeram, mas o veemente desejo do céu, que lhes incendiava as almas. Desejavam morrer para estarem com Cristo. Desde que o apóstolo Paulo manifestou esse sentimento, a moda pegou (Fl 1, 23). Basta ler a vida dos santos para percebermos que a maioria deles suspirava pela morte, que os separava do abraço de Deus.

Assim foi com São Benedito. Percebendo que seu fim se aproximava, exultou de alegria, diz seu biógrafo Frei Diogo do Rosário. “Não é pouco habitar em mosteiros ou em comunidades, ali viver sem queixas e perseverar fielmente até a morte”, diz o autor da Imitação de Cristo.

Com o corpo alquebrado pelos trabalhos e sofrimentos da vida, aos 63 anos, Benedito se achava no fim do seu caminho. A doença aproveitou a brecha e começou a minar-lhe as últimas forças. Aliás, com todos é assim: tudo no mundo nos fere a cada tique-taque do relógio, até a última ferida nos mata.

Benedito percebia tudo. Percebia e se alegrava, porque via Cristo esperando-o atrás da porta. A mesma fé, a mesma esperança que inundava o coração do Apóstolo Paulo inundava também a alma de Benedito, que podia repetir: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a minha fé” (2Tm 4, 7).

Em fevereiro de 1589 caiu de cama. Tinha certeza que se tratava do seu fim e justamente por isso se alegrou. Doença relativamente rápida: dois meses. Mas serviu para dar os últimos retoques na sua santidade, provando-o na paciência e na humildade.

Procurava aborrecer o mínimo possível o enfermeiro que o acudia. Tudo para ele estava bom , de nada reclamava. De um doente assim até dava gosto de cuidar. A contemplação de um céu que já estava tão perto amenizava muito as dores do Servo de Deus.

Sabendo que os últimos conselhos de um pai, de um religioso ou de um amigo se gravam indelevelmente na memória dos que o assistem, Benedito, do seu leito de morte, fazia o seu apostolado. Suas palavras sobre o arrependimento e a conversão eram quentes como estas da Imitação: “Miserável serás...se não te converteres a Deus. Por que queres deixar para depois teus bons propósitos? Levanta-te e começa neste instante. Agora é tempo de te emendares” (L. 1. Cap. 22). Ou, então, outros pensamentos profundos como estes: “O que nos adianta viver muito, quando tão pouco nos emendamos?” Façamos penitência – dizia o Santo – porque na hora da morte haveremos de arrepender-nos muito pelo tempo desperdiçado no pecado ou não aproveitado para a salvação.

3 COM O PÉ NA ETERNIDADE

O leitor está percebendo que o jogo está no fim. O jogo que todo mortal trava contra a morte e que sempre acaba perdendo. Para um cristão, e ainda para um franciscano, não é perda, pois “é morrendo que se vive para a vida eterna”.

Deus encheu seu amigo Benedito de consolações espirituais nos dias que antecederam sua morte. Certa vez, estando o enfermeiro vigilante, percebeu, em dado momento, que o rosto do doente se iluminou. A boca se abriu e os olhos ficaram fixos e extáticos. – “É o fim, pensou o enfermeiro – Frei Benedito está cruzando o limiar da eternidade”. E saiu correndo para chamar a comunidade para vir rezar as últimas orações que se fazem para os agonizantes. Mas ainda não era a morte. A comunidade ficou sabendo depois que Benedito tivera uma visita do céu, alguma coisa parecida com aquela descrição do apóstolo Paulo: “Conheço um homem que foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir” (2Cor 12, 4).

Benedito voltou a si da visão celeste que teve e disse ao enfermeiro: “Pode ficar tranqüilo que eu o avisarei do dia e da hora da minha morte”. Depois disse-lhe claramente: “Vou falecer no dia 4 de abril”. O enfermeiro retrucou-lhe: “Imagine, Frei Benedito, como esta casa irá ficar cheia!” Isso ele dizia prevendo o transtorno que haveria no convento, com o povão que viria para o velório.

- “Pode ficar sossegado, garantiu-lhe o Santo – não virá ninguém”.

As duas profecias se cumpriram. Benedito faleceu a 4 de abril e pouca gente compareceu ao velório. Como foi possível essa ausência? A explicação dada pelos historiadores não convence muito: “Andavam os moradores de Palermo em festa nesse dia e por isso ninguém veio ao convento”.

Que festa seria esta? Era uma popular festa do Divino, numa igreja do Espírito Santo, nos arredores de Palermo. Talvez o pároco e outros sacerdotes da cidade tenham dado preferência à festa e por isso se calaram sobre a morte de Frei Benedito. Ou, talvez, os próprios franciscanos não quiseram fazer muita notícia da morte do Santo, porque senão seria um Deus-nos-acuda de gente, dificultando as exéquias. Três dias de velório não seriam suficientes para matar a curiosidade do povo devoto, e Frei Benedito havia pedido para ser sepultado logo. Talvez o Santo previsse problemas...Seja qual for a explicação, o que interessa ao biógrafo é mostrar que a profecia do Santo se cumpriu.

4 BENDITA MORTE


“Entre cantos e danças foi recebido Benedito no Reino do céu.” (Congada)



Morte de Santo, festa no céu. A morte de São Benedito foi realmente linda porque ele se preparou para morrer. Sua vida inteira foi uma preparação para a morte. Por isso podemos dizer com certeza que a sua morte foi o sono do justo. Naquele dia 4 de abril, o Santo teve o prazer e a felicidade de receber todo o consolo q que tinha direito da parte da Igreja: confissão, comunhão (viático), unção dos enfermos, últimas orações, inclusive a “bênção papal”, que os sacerdotes têm delegação para dar aos agonizantes.

Benedito assentou-se na cama e, olhando para o céu, rezava e contemplava. Invocava seus santos de padroeiros: São Francisco, São Miguel, São Pedro e São Paulo e Santa Úrsula. Esta última foi uma religiosa martirizada com várias companheiras, no século IV. Suas relíquias estão em Colônia, na Alemanha.

A certa altura das suas orações, e depois de uma visão que teve de Santa Úrsula, Benedito rezou em voz alta: “Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito”, oração que se rezava diariamente no Ofício da noite, chamado Completório. Dizendo isso, ele deitou-se, fechou os olhos e deu o último suspiro. Tudo na mais santa e doce paz.

Dos seus 63 anos, quarenta e dois foram vividos exclusivamente para Deus. Religioso professo durante 37 anos mais ou menos. Era terça-feira da Páscoa. Benedito, que viveu sempre em espírito de Páscoa, porque sempre na graça de Deus, mas que, naquele ano não pudera participar das festas e alegrias do domingo da Páscoa, foi celebrar essas alegrias no céu. Foi lá participar daquela enorme procissão, onde todos estão vestidos de branco, como a sua Irmandade hoje, porque lavaram as suas túnicas no sangue do Cordeiro (Ap 7, 14).

Os sinais de santidade que envolveram seus últimos instantes, como a paz, a alegria, o brilho no rosto, uma fé que nunca vacilou, tudo isso junto deu aos seus confrades aquela certeza da morte de um santo.

Escreveu Zeno Reoh que a morte não é o término, mas o acabamento ou plenitude de uma vida. Diante dos sinais acontecidos na morte de São Benedito, quem duvida que ele tenha levado à plenitude a tarefa que Deus lhe confiou nesta vida?

São Gregório Magno, papa, nos conta que São Bento viu a alma de sua irmã Escolástica penetrar no céu, na forma de pomba. A mesma graça teve uma sobrinha do nosso querido Santo, Benedita Nastasi, de dez anos. Estando ela observando uma pombinha que entrou dentro de casa, ouviu a voz do tio:

- “Benedita: quer alguma coisa de lá?”

- “De lá, onde, meu tio?”, retrucou a menina.

- “Lá do céu”, completou a conhecida voz. E a pombinha desapareceu. Quem tiver uma alma simples e desimpedida como a do papa São Gregório, verá com a mesma simpatia as pombinhas mensageiras de Santa Escolástica e de São Bento, embora nada disso seja de fé, a não ser de humana.

Bibliografia

SOUZA, Aloísio Teixeira de. Vida de São Benedito. Aparecida, SP: Santuário, 1992. p. 104-114.