sexta-feira, 4 de abril de 2008

RELATO DA MORTE DE SÃO BENEDITO


1 BENDITOS OS QUE ESPERAM VIGILANTES (Lc 12, 37)

A perseverança é a pedra de toque da santidade. Quem não viveu, quem não sofreu com perseverança na fé, ainda não provou o que é.

Nos dias de sua Paixão, Jesus dirigiu aos seus Apóstolos este lindo elogio: “Vocês estiveram sempre junto a mim nas minhas provações” (Lc 22, 28). “O homem foi feito para o amor – escreveu Michel Quoist – e só cresce no amor”. A perseverança é a prova do amor. Cada dia, cada momento da vida de São Benedito foram vividos no amor. Cresceu no amor como crescem as árvores plantadas à beira d’água. Essas águas misericordiosas de Deus foram abundantes na vida de São Benedito e ele nunca deixou de beber delas. Então, é o próprio Espírito Santo quem nos faz concluir por um alto juízo sobre a santidade de Benedito, apoiando-nos nestas pelavras reveladas: “O homem justo crescerá como a palmeira e florescerá como o cedro do Líbano plantado na casa do Senhor. Mesmo na velhice dará frutos cheios de seiva e verdejantes” (Sl 91).

Benedito viveu pouco para os moldes de hoje. Apenas 63 anos. Para quem desejava o céu, como ele, foi uma longa espera. Nunca foi de se poupar, porque poupar-se em demasia pode até aumentar os anos, mas diminui os merecimentos. Desgastar-se por amor de Deus e dos irmãos é contribuir com bom preço para o Reino de Deus. É assim que diz o Evangelho: “Quem ama a sua vida, irá perdê-la, e quem aborrece sua vida, irá conservá-la para a vida eterna” (Jo 12, 55).

Seus dias foram cheios. No campo, na lavoura, no eremitério de Frei Lanza ou no convento de Santa Maria de Jesus sua vida foi trabalho, trabalho e mais trabalho. “A vida do homem sobre a terra é uma luta”. A divisa de Jó foi também o programa de vida para Benedito. Jamais conheceu perdas pelas quais tivesse que se arrepender. Era o servo fiel e prudente, e, com isso, atingiu enorme santidade e Deus alcançou grande glória.

2 FIM DO CAMINHO

“Preciosa é, aos olhos do Senhor, a morte de seus santos” (Sl 115, 15). Por que é preciosa? Porque Deus tem pressa de premia-los com a felicidade infinda do céu. Contudo Deus dá a cada um a vida que lhe estava prevista desde toda a eternidade, porque cada um tem de cumprir a missão para a qual Deus o criou. “Quero que onde eu estiver, vocês estejam também”, disse Jesus aos seus discípulos. Se há alguma coisa que diminuiu a vida dos santos, não foram as penitencias que fizeram, mas o veemente desejo do céu, que lhes incendiava as almas. Desejavam morrer para estarem com Cristo. Desde que o apóstolo Paulo manifestou esse sentimento, a moda pegou (Fl 1, 23). Basta ler a vida dos santos para percebermos que a maioria deles suspirava pela morte, que os separava do abraço de Deus.

Assim foi com São Benedito. Percebendo que seu fim se aproximava, exultou de alegria, diz seu biógrafo Frei Diogo do Rosário. “Não é pouco habitar em mosteiros ou em comunidades, ali viver sem queixas e perseverar fielmente até a morte”, diz o autor da Imitação de Cristo.

Com o corpo alquebrado pelos trabalhos e sofrimentos da vida, aos 63 anos, Benedito se achava no fim do seu caminho. A doença aproveitou a brecha e começou a minar-lhe as últimas forças. Aliás, com todos é assim: tudo no mundo nos fere a cada tique-taque do relógio, até a última ferida nos mata.

Benedito percebia tudo. Percebia e se alegrava, porque via Cristo esperando-o atrás da porta. A mesma fé, a mesma esperança que inundava o coração do Apóstolo Paulo inundava também a alma de Benedito, que podia repetir: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a minha fé” (2Tm 4, 7).

Em fevereiro de 1589 caiu de cama. Tinha certeza que se tratava do seu fim e justamente por isso se alegrou. Doença relativamente rápida: dois meses. Mas serviu para dar os últimos retoques na sua santidade, provando-o na paciência e na humildade.

Procurava aborrecer o mínimo possível o enfermeiro que o acudia. Tudo para ele estava bom , de nada reclamava. De um doente assim até dava gosto de cuidar. A contemplação de um céu que já estava tão perto amenizava muito as dores do Servo de Deus.

Sabendo que os últimos conselhos de um pai, de um religioso ou de um amigo se gravam indelevelmente na memória dos que o assistem, Benedito, do seu leito de morte, fazia o seu apostolado. Suas palavras sobre o arrependimento e a conversão eram quentes como estas da Imitação: “Miserável serás...se não te converteres a Deus. Por que queres deixar para depois teus bons propósitos? Levanta-te e começa neste instante. Agora é tempo de te emendares” (L. 1. Cap. 22). Ou, então, outros pensamentos profundos como estes: “O que nos adianta viver muito, quando tão pouco nos emendamos?” Façamos penitência – dizia o Santo – porque na hora da morte haveremos de arrepender-nos muito pelo tempo desperdiçado no pecado ou não aproveitado para a salvação.

3 COM O PÉ NA ETERNIDADE

O leitor está percebendo que o jogo está no fim. O jogo que todo mortal trava contra a morte e que sempre acaba perdendo. Para um cristão, e ainda para um franciscano, não é perda, pois “é morrendo que se vive para a vida eterna”.

Deus encheu seu amigo Benedito de consolações espirituais nos dias que antecederam sua morte. Certa vez, estando o enfermeiro vigilante, percebeu, em dado momento, que o rosto do doente se iluminou. A boca se abriu e os olhos ficaram fixos e extáticos. – “É o fim, pensou o enfermeiro – Frei Benedito está cruzando o limiar da eternidade”. E saiu correndo para chamar a comunidade para vir rezar as últimas orações que se fazem para os agonizantes. Mas ainda não era a morte. A comunidade ficou sabendo depois que Benedito tivera uma visita do céu, alguma coisa parecida com aquela descrição do apóstolo Paulo: “Conheço um homem que foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir” (2Cor 12, 4).

Benedito voltou a si da visão celeste que teve e disse ao enfermeiro: “Pode ficar tranqüilo que eu o avisarei do dia e da hora da minha morte”. Depois disse-lhe claramente: “Vou falecer no dia 4 de abril”. O enfermeiro retrucou-lhe: “Imagine, Frei Benedito, como esta casa irá ficar cheia!” Isso ele dizia prevendo o transtorno que haveria no convento, com o povão que viria para o velório.

- “Pode ficar sossegado, garantiu-lhe o Santo – não virá ninguém”.

As duas profecias se cumpriram. Benedito faleceu a 4 de abril e pouca gente compareceu ao velório. Como foi possível essa ausência? A explicação dada pelos historiadores não convence muito: “Andavam os moradores de Palermo em festa nesse dia e por isso ninguém veio ao convento”.

Que festa seria esta? Era uma popular festa do Divino, numa igreja do Espírito Santo, nos arredores de Palermo. Talvez o pároco e outros sacerdotes da cidade tenham dado preferência à festa e por isso se calaram sobre a morte de Frei Benedito. Ou, talvez, os próprios franciscanos não quiseram fazer muita notícia da morte do Santo, porque senão seria um Deus-nos-acuda de gente, dificultando as exéquias. Três dias de velório não seriam suficientes para matar a curiosidade do povo devoto, e Frei Benedito havia pedido para ser sepultado logo. Talvez o Santo previsse problemas...Seja qual for a explicação, o que interessa ao biógrafo é mostrar que a profecia do Santo se cumpriu.

4 BENDITA MORTE


“Entre cantos e danças foi recebido Benedito no Reino do céu.” (Congada)



Morte de Santo, festa no céu. A morte de São Benedito foi realmente linda porque ele se preparou para morrer. Sua vida inteira foi uma preparação para a morte. Por isso podemos dizer com certeza que a sua morte foi o sono do justo. Naquele dia 4 de abril, o Santo teve o prazer e a felicidade de receber todo o consolo q que tinha direito da parte da Igreja: confissão, comunhão (viático), unção dos enfermos, últimas orações, inclusive a “bênção papal”, que os sacerdotes têm delegação para dar aos agonizantes.

Benedito assentou-se na cama e, olhando para o céu, rezava e contemplava. Invocava seus santos de padroeiros: São Francisco, São Miguel, São Pedro e São Paulo e Santa Úrsula. Esta última foi uma religiosa martirizada com várias companheiras, no século IV. Suas relíquias estão em Colônia, na Alemanha.

A certa altura das suas orações, e depois de uma visão que teve de Santa Úrsula, Benedito rezou em voz alta: “Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito”, oração que se rezava diariamente no Ofício da noite, chamado Completório. Dizendo isso, ele deitou-se, fechou os olhos e deu o último suspiro. Tudo na mais santa e doce paz.

Dos seus 63 anos, quarenta e dois foram vividos exclusivamente para Deus. Religioso professo durante 37 anos mais ou menos. Era terça-feira da Páscoa. Benedito, que viveu sempre em espírito de Páscoa, porque sempre na graça de Deus, mas que, naquele ano não pudera participar das festas e alegrias do domingo da Páscoa, foi celebrar essas alegrias no céu. Foi lá participar daquela enorme procissão, onde todos estão vestidos de branco, como a sua Irmandade hoje, porque lavaram as suas túnicas no sangue do Cordeiro (Ap 7, 14).

Os sinais de santidade que envolveram seus últimos instantes, como a paz, a alegria, o brilho no rosto, uma fé que nunca vacilou, tudo isso junto deu aos seus confrades aquela certeza da morte de um santo.

Escreveu Zeno Reoh que a morte não é o término, mas o acabamento ou plenitude de uma vida. Diante dos sinais acontecidos na morte de São Benedito, quem duvida que ele tenha levado à plenitude a tarefa que Deus lhe confiou nesta vida?

São Gregório Magno, papa, nos conta que São Bento viu a alma de sua irmã Escolástica penetrar no céu, na forma de pomba. A mesma graça teve uma sobrinha do nosso querido Santo, Benedita Nastasi, de dez anos. Estando ela observando uma pombinha que entrou dentro de casa, ouviu a voz do tio:

- “Benedita: quer alguma coisa de lá?”

- “De lá, onde, meu tio?”, retrucou a menina.

- “Lá do céu”, completou a conhecida voz. E a pombinha desapareceu. Quem tiver uma alma simples e desimpedida como a do papa São Gregório, verá com a mesma simpatia as pombinhas mensageiras de Santa Escolástica e de São Bento, embora nada disso seja de fé, a não ser de humana.

Bibliografia

SOUZA, Aloísio Teixeira de. Vida de São Benedito. Aparecida, SP: Santuário, 1992. p. 104-114.

Nenhum comentário: