terça-feira, 3 de dezembro de 2019

[Crônicas da Vida] ELE SAIU


Ele saiu. Passou pelas ruas estreitas e sujas do seu submundo.



Alargou os passos, pois, já estava perdendo o início de seu único padrão de alegria.



Intencionado apenas em ser feliz. Não possuía vícios, apenas o desejo de ser feliz. E foi adentrando noite adentro para curtir seu único padrão de alegria.



O gosto pela música que de longe o atraía, não o entusiasmava. Porém, aquela alegria que, nela continha a quem nenhuma alegria tinha no seu dia-a-dia, a sua mente não parava de acusar: “era o seu único padrão de alegria, agora vá e volte no outro dia!”. Ele foi.



Não é o que se gosta, mas, é o que se tem. Sua mãe também o dizia quando não queria comer algo não agradável aos olhos ou ao paladar. Mas, ali se tratava do único alimento que seu prato continha. Desprezar o que sacia a sua fome, diante de tanto desprezo que já sentira nos olhos das autoridades só pelo fato de ser um pobre, seria desrespeito a si mesmo. Comia e engolia sem vomitar.



Chegando ao foco do seu único padrão de alegria, foi acolhido pela gritaria e correria...tentou voltar para trás assustado, mas, a onda de gente o atingiu, sem prancha não pode surfar e, dali sair com a sua vida mísera e desprezada.



Seu corpo estendido, agora extinto virou capas de jornais e revistas. Se tornou tristeza para alguns desprezados e esquecidos da sociedade. Para algumas classes de pessoas privilegiadas, seu corpo frio, virou padrão de alegria.



Que ele não seja lembrado como alguém que apanhou da vida. Mas que não seja mais desprezado pelos semelhantes que lutam pelo verdadeiro bem e não são hipócritas como os que se alegram com o findar do brilho de seu olhar. Que essa vida despejada nas vielas de seu lar, possa trazer sentido de vida e alegria mais acolhedora e não exclusiva nas estreitas estradas de quem por elas passarem em busca de uma vida feliz.



Que as classes geradoras de desigualdade possam ter empatia e fazer mais do que acumular poder e riqueza considerando que a única cultura prestável é a sua. Aprendam, de uma vez por todas, que a cultura do acumulo, fere e mata a cultura daqueles que querem apenas ter prazer em viver! Acredito que a lógica do seu acúmulo não deseja a morte de ninguém, ou deseja?


IMAGEM RETIRADA DESSE LINK: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2019-12/nota-regional-sul1-cnbb-morte-jovens-paraisopolis.html

Nenhum comentário: